As Manifestações Artísticas e Perigos das Esquinas do Rio

Nos anos 60, quando o Rio deixou de ser a Capital Federal, para virar a cidade/estado Guanabara/Rio, o carioca tinha orgulho de suas esquinas! Pode parecer estranho ao não carioca mas, realmente a esquina tinha uma personalidade.

O carioca dizia que Brasília era uma cidade fria, inabitável, dentre outras coisas, pelo fato de não ter esquinas. Uma pessoa tinha um certo status de esperteza ou vivência, quanto tinha tempo de esquina. E pensando bem, as pessoas não se encontravam no meio dos quarteirões. Era sempre a turma da esquina das ruas tal com rua tal. Não tinha turma do quarteirão.

Enfim, esquina era coisa importante na vida do carioca. Tinha a turma, o bar, a farmácia, o açougue, a mercearia que acabavam sendo sempre um ponto de encontro ou uma referência, mas sempre positiva.

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Hoje as esquinas do Rio são grandes armadilhas. A começar pelo fato de esquina significar travessia de pedestre e portanto risco de morte diária para que tenta atravessa-las. A tal faixa de pedestre que é respeitada em qualquer lugar mais ou menos civilizado do mundo, aqui não existe na maior parte dos cruzamentos, ou está quase apagada por falta de manutenção.

Mas o problema é que a faixa não representa absolutamente nada nem para o motorista nem para o pedestre. Ambos desrespeitam o seu uso, portanto, existir ou não, não faz a menor diferença. Mas saindo com vida da travessia e voltando para a esquina, o que vemos hoje? Nada. Acabou a turma da esquina, ninguém mais sai a pé com medo de ser assaltado e ficar parado numa esquina batendo papo é um verdadeiro suicidio.

Você pode ser atropelado em cima da calçada; corre grande risco de ser roubado e vira um alvo fixo para o tiro ao alvo da bandidagem, além das balas perdidas que teimam em achar inocentes pelo seu caminho.

Como você não anda a pé, os problemas ocorrem quando você está motorizado. Em cada esquina, cada cruzamento há uma fauna diferente. Vende-se e deixam de vender de tudo. O marketing do sinal é fascinante. Ao menor sinal de chuva surgem vendedores de guarda chuvas como por encanto. Quando o sol está de rachar, aparecem vendedores de refrigerantes e água gelada. De onde surgem os caras? Que distribuição fantásticaimages!

No meio de todos os vendedores surgem alguns com uns produtos um tanto inviáveis para o momento. Há uns que tentam vender umas bolas de plástico de mais de um metro de diâmetro!

O cara carrega um sacão enorme com umas 30 bolas daquelas multicoloridas. Ele já tem uma imensa dificuldade de circular entre os automóveis e, se um dia ele encontrar um cliente, ele jamais terá tempo de colocar o sacão no chão, pegar a bola da cor escolhida, receber o dinheiro, dar o troco…porque simplesmente a bola não entra pela janela. O cliente simplesmente tem que abrir a porta, sair do carro, enfiar a bola, voltar pro carro, fechar a porta… poxa, nesse meio tempo uns três caras já aproveitaram e roubaram o carro.

Outra mercadoria improvável é a dos bichinhos infláveis. Bichinhos é modo de dizer: são tubarões enormes, girafas pescoçudas, ricocerontes e elefantes que simplesmente não cabem no carro.

Há os pedintes profissionais que não vendem nada só pedem e tem seus pontos fixos há anos. Tem o Ghandi da Lagoa, que ocupa o mesmo espaço há mais de dez anos. Ele antigamente se vestia de Mahatma, hoje, nem isso. Ele vai à paisana mesmo, de calça comprida e camisas comuns. Há os aleijados e cegos e os cegos e aleijados falsos.

Na esquina de Pacheco Leão com a Jardim Botãnico, acompanhei o crescimento de uma menina que tinha um potencial artístico impressionante. Enquanto o sinal estava aberto e os carros passavam, ela estava sempre sorrindo brincando com outras crianças. Bastava o sinal parar para ela começar a chorar lágrimas de esguicho.images (1) Anos mais tarde ela continuava com o número grávida e meses depois com a criança no colo. Um fenômeno.

De uns anos prá cá surgiram os atletas de cruzamento. Os caras correm mais que o Usahim Bolt, distribuindo sacos de balas e colocando-os no espelho retrovisor. Se dependesse deles o Brasil não estaria tão mal no atletismo. Deveriam ser aproveitados pelo COB.

Mas nada proliferou mais que os malabaristas de sinal. Uma verdadeira praga. Não há uma esquina que não haja pelo menos um moleque com bolas de tenis, laranjas ou limões. Uns já são artistas que teriam vaga garantida no Cirque de Soleil, outros são patéticos, coitados. Não conseguem manipular nem duas bolinhas213_1448-malabares.

É incrível – e chocante – que todos levantam as camisetas antes da performance, para mostrar que não estão armados!!!

Há aqueles que trabalham em dupla e transportam verdadeiros praticáveis para o meio da rua. Demoram tanto tempo, que não sobra muito para eles recolherem o dinheiro dos motoristas.

Aliás, o grande problema desses digamos assim, mais talentosos, é o timing. Eles se empolgam com a apresentação, demoram muito, atrapalham o trânsito e não ganham nada.

Nessa área já temos mão de obra estrangeira. Quando você cruzar com um cara com massa de malabares, com a cara pintada a Marcel Marceau, afine o seu portuñol porque trata-se , certamente de um hermano porteño, buscando outros mercados. É o Mercosul em franco desenvolvimentofire.

Por outro lado, se for à noite e você se deparar com cuspidores de fogo ou malabaristas incandecentes, não tenha dúvidas: é mexicano! Os cruzamentos da Cidade do México não precisam de iluminação. Tem pelo menos quatro desses piromaniacos em cada esquina.

Em meio a toda essa salada humana de trabalho informal, juntam-se os verdadeiros marginais que cometem sequestros relâmpago, roubam celulares, bolsas e muitas vezes a vida de muitos motoristas. E no meio dessa última categoria, inserem-se os “lavadores de para-brisas”Digitalizar0002, verdadeiros bandidos que atacam os carros, principalmente aqueles dirigidos por mulheres sózinhas. Em grupos eles envolvem o carro, jogam uma substancia viscosa no para brisas enquanto os outros ameaçam a pessoa indefesa. Esses “trabalham” livremente a maioria das vezes às vistas de complacentes policiais.

Mas nem tudo é violência nos cruzamentos do Rio. Recentemente surgiu, em plena Avenida das Américas uma nova atração. Uma nova versão da Xuxa. Um cara maaaagro, travestido de Xuxa dos anos 80, com uma peruca de maria chiquinha e um falso microfone na mão. O sinal para, ele fica na frente dos carros saltitando um inaudível Ilariê e depois passa uma linda caneca cor de rosa pelos motoristas.

Acho que a Xuxa já faz ponto alí há uns três meses e tenho a leve impressão que jamais ganhou um tostão. Coitada. Poderia estar roubando, sequestrando….

Publicado em: às 20/09/2009 em 14:55  Comentários (1)  
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Um ComentárioDeixe um comentário

  1. interessante o post
    o tom irônico e a decomposição de um paisagem que parece tão simples numa multidão de atores: a faixa de pedestre, a esquina e o semaforo, uma simples rua…

    o interessante, e acho que podia ter sido mais realçado, é que embora hajam fiascos, é que, como foi dito, há aqueles que mereciam estar num Cirque De Soleil…

    o/


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